Revista QDicas Poderosas - A Revista sobre Amor, Eros e Sexo.

Paloma Chama. Depois fumaça

Por Mariana Dias

Ela senta no banco de uma praça, qualquer praça, e fica ali, só parada. Olhando as pessoas passando. Em sua cabeça não cabe mais nada. Nem palavra. Nem ponto. Nada. Mesmo que os pensamentos insistam em mantê-la acordada sonhando, nela não, não cabe mais nada. E no coração, só estilhaços. Sonhou que era outra e que ia morar em outro lugar. Inquieta, fuma cigarro. Voltou a esse vício fumaça. Dizem que fumaça espanta. Dizem que fumaça chama. Chama chuva que apaga… Ela fuma fumaça e quer que seu corpo se torne pluma, e que deslize palavras por ele. Ela quer só escrever. Mas para quem ler? Tantas pessoas escrevem. Tantas pessoas existem. Todos, os de todas as vidas passadas, vieram se encontrar logo aqui, nesta vida de agora: por isso o mundo está lotado de tanta gente, ela pensa. Viramos a praga do mundo.

Ela gosta de ouvir a conversa das pessoas que passam. Reconhece uma passante que estudou com ela no Conservatório, mas não fala, deixa passar. Deixa que tudo passe. Ela deixa. Quer sozinha descobrir. Quer sozinha se perder. Quer sozinha se encontrar. Por aí. Mas se alguém a encontrar antes, por favor, me avise. Tenho como avisá-la deste encontramento. Desse encontramedo. Desse medo. Tenho como avisá-la através de algum sinal de fumaça. Que se faça, que se faça.

Não se arrepende de ter escolhido nascer sob o signo de Áries e também ser um pouco Peixes. E ser um pouco de cada um desses signos estranhos e antigos. Signo de fogo é fogo. É fogo, é raça. Fica ali quente, serpente, fumaça. Dura qual brasa que nunca se apaga. Cão fiel como um burro de carga. Ingênuo feito labareda que ascende o desejo do balão junino de voar. E pior que voa, voa longe e ascende fogueiras em outro lugar. E deixa marcas, rastros por onde passa. Ela acredita na verdade, mas se espanta porque pessoas queimam! Pessoas queimam como lagarta. Pessoas ardem como palavras e ela lambe. Lambe-lambe na praça. Essa mulher incendiária que por onde passa quer deixar sua marca. Ai, ai, essa pomba rosa, vermelha, fumaça. Paloma viva que fuma no banco de uma praça, enquanto lembra do poema de Bandeira: “Amor - chama, e, depois, fumaça…”