Tenho medo de perder a memória. Imagine esquecer tudo o que foi vivido, as pessoas que se amou, a música daquele compositor, os lugares que se visitou, as coisas que se viu...
Com a idade, é provável que a audição e a visão diminuam, e a capacidade de lembrar das coisas também. Li recentemente que pesquisadores de uma universidade em Cingapura descobriram que o chá ajuda a preservar a memória.
É fantástico pensar que as propriedades de uma bebida podem nos ajudar a não esquecermos das datas especiais, da flor preferida da namorada, do aniversário do avô, de que o filho gosta de pão com bastante requeijão, entre outras coisas.
Fantástico também é perceber que no Brasil o costume de se beber chá não existe. Coincidentemente, somos um país sem memória. Será falta de chá preto ou verde na nossa lista de bebidas favoritas? Segundo esse mesmo estudo, essas duas infusões têm substâncias que ativam certas regiões do cérebro.
A questão aqui não é o tipo de chá – até porque há uma infinidade de sabores e aromas –, mas sim de como um hábito tão tradicional em lugares como China e Reino Unido poderia ser usado ao nosso favor. Não temos a cultura de beber chá porque moramos em um país tropical, onde o frescor dos sucos de frutas e da cerveja é reinante.
Brasileiro esquece em quem votou nas últimas eleições, dificilmente recorda escândalos políticos e se faz de desentendido quando o assunto é sua própria sacanagem; talvez esteja aí a explicação para se beber tantas “loiras”.
Além do “chazinho de simancol” – aquele que nos ajuda a reconhecer a hora de sair de cena -, seria ótimo se cada um de nós, brasileiros, tomássemos ao menos uma xícara de chá preto por dia; garantiríamos um futuro mais digno.
Preservar a memória nos ajuda a ser menos falíveis, a lembrar dos desconcertos do passado e não repetir as mesmas erratas no futuro.
A memória deve ser exercitada para lembrar de coisas que nos ajudam a viver melhor e esquecer as outras que só preenchem espaço na nossa cabeça.
Minha mãe diz que as palavras-cruzadas são ótimas para exercitar o cérebro. Professores recomendam que ler nos faz viajar sem sair do lugar e ainda trabalha nossa percepção do mundo – olha a memória sendo utilizada aí novamente. Ainda sou resistente quanto a palavras-cruzadas, mas leio bastante e tomo muito chá. Aliás, minha mãe faz uma infusão de chá preto que é deliciosamente única. E certamente vai ser lembrada por gerações.
Se o gosto dessa bebida não agrada, José Saramago é um chato que não sabe as regras de pontuação e a revistinha Coquetel é coisa de senhora aposentada; ok, respeitável. Mas certamente há muitos joguinhos no Playstation e no Wii que podem ajudar você a usar a massa cinzenta; não espero que ninguém inclua uma caneca de chá “tira mau humor” no café da manhã.
Vale tudo quando o negócio é não deixar que as páginas da sua vida se apaguem ao longo dos anos. Até porque, imagino que você queira lembrar de todas as loucuras que fez para contar aos seus netos.
E mais, ser um homem melhor pode começar por uma simples xícara de memória: se cada um tomar a sua, o Brasil deixará de ser o país dos “Desmemoriados”. Ah, antes que eu esqueça: o seu com ou sem açúcar?