Tenho medo de perder a memória. Imagine esquecer tudo o que foi vivido, as pessoas que se amou, a música daquele compositor, os lugares que se visitou, as coisas que se viu...
Enfim, mudei de emprego. E logo que entrei na nova empresa pensei: “o que estou fazendo aqui? Estava tudo tão bom como estava”. Essa sensação durou um dia, até que meu novo chefe me chamou para uma reunião e falou sobre minha chegada à empresa e as metas de médio prazo. “Ufa!”, pensei, aliviado, com a certeza de que entrei em um novo momento.
Novo emprego, novas perspectivas. A primeira semana desse ciclo profissional que se inicia me levou a muitas reflexões e constatações. Uma aconteceu quando me vi cercado por outros colegas de trabalho que não aqueles que já me conheciam bem. É nesse momento que a gente percebe como é bom estar aberto ao desconhecido. E eu estava resistente ao novo.
E por falar em renovação, aproveitei a mudança para rever meu guarda-roupa; agora faço parte do mundo corporativo – leia-se: calça social, camisa, sapato engraxado, etc. Fui a uma dessas lojas de roupas masculinas que a gente que trabalha de camiseta e calça jeans só aparece quando tem um casamento. Queria comprar camisas de manga longa e “cores discretas”, como pede o código da empresa onde trabalho.
Ao experimentar três camisas, sem sucesso, percebi que algo estava errado. Não era a cor ou o tecido, era a imagem do espelho. “Tô gordo”, pensei alto, chamando a atenção da vendedora. “Você quer um número maior?”, perguntou ela, toda solícita. “Não, obrigado. Acho que vou deixar para depois”. Saí da loja com a segunda constatação: a zona de conforto tem o seu preço.
No final de semana, num encontro com a turma, elogiamos o pique de uma amiga, a quem apelidei carinhosamente de “hiper-ativa”. Telma trabalha no setor financeiro, dá aulas de inglês alguns dias da semana, estuda aos sábados, vai à igreja nos finais de semana e ainda arruma tempo para encontrar os amigos. Como ela consegue? Essa guerreira atribui seu fôlego aos dias em que se exercita. Sim, Telma ainda faz natação e ginástica. Reflexão: “quando foi a última vez que eu fiz um abdominal mesmo?”
Para completar, passei por uma banca de revistas e me deparei com uma dessas revistas sobre saúde. A manchete: “Nove motivos sérios para você perder a barriga”. Ok! Entendi o recado! E já li o artigo.
Como se não bastasse, meu pai foi tomado por um dia de “vamos falar sério” e me questionou sobre minha vida amorosa e sexual. Opa! Calma lá. Aqui não se mexe. É covardia demais. “Meu filho, como você, tão inteligente, bem-sucedido (?) e bonito (tinha que ser meu pai mesmo!) está sozinho? Você precisa de alguém”.
Na verdade, a resposta que devia ter dado ao meu pai e que me inspirou a escrever esse texto é que chegou a hora de colocar a casa em ordem: cuidar da saúde, derreter a barriga, conhecer gente nova e aproveitar a os pequenos sinais que a vida nos dá.
E você, está confortável por aí?
Vale tudo quando o negócio é não deixar que as páginas da sua vida se apaguem ao longo dos anos. Até porque, imagino que você queira lembrar de todas as loucuras que fez para contar aos seus netos.
E mais, ser um homem melhor pode começar por uma simples xícara de memória: se cada um tomar a sua, o Brasil deixará de ser o país dos “Desmemoriados”. Ah, antes que eu esqueça: o seu com ou sem açúcar?