Revista QDicas Poderosas - A Revista sobre Amor, Eros e Sexo.

Às quatro e dez da tarde

Por Maria Carmem Barbosa

Há uma moça que eu conheço que chora todo dia e, por volta das quatro e dez da tarde, ela arde, ferve em solidão. Pega o cabelo e reparte, do lado de lá de quem vem e nunca chega por isso ela chora baixinho no vestido de algodão.

Depois enjoa do pranto, aliás, com toda razão, fica nua na janela, faz gestos obscenos pras crianças, faz no cabelo uma trança, senta na cadeira e balança, pesa todos os seus dias e borda um paninho de mão.

Tudo que ela queria era ir pra vida, mas é tão descolorida, vai dar certo, não...

Um dia, passando do giro, se amasiou com um vampiro e ficou cheia de dívidas... de sangue. Disse fria e calculista: "Desista! Nosso tempo de coagulação não é mais o mesmo." E lá se foi o pobre a esmo, bater asas no sertão.

Espera dar meio-dia, que com ela, nem panela no fogo, nem barriga vazia, só na lataria... Muita salsicha diet e pão. Abusa e não engorda, porque é fraca do pulmão. Antes de tudo, confia na própria tosse, sabe que tosse bonito. "Esse é o som que eu emito!" Diz orgulhosa de si. "Uns rosnaram, outros miaram, eu? Eu tossi!"

Pobre Amélia das Camélias!

Certa feito um moço bonito insinuou uns olhares aflitos para a senhora da janela. "Será por mim?", pensou ela.

-   Eu vinha passando...
-   Eu vi.
-   Achei você tão serena...
-   Que pena!...
-   Seus olhos me atraíram até aqui.
-   Não ouvi.
-   É surda?
-   De um pulmão...
-   Direito ou esquerdo?
-   Depende em que direção você esteja indo...
-   Ao seu encontro...
-   Não fala assim.
-   Falo.

E sem remorsos come-lhe a carne, roi-lhe os ossos e conta para todo mundo, que fez e desfez do rapaz. Reza pelo Oriente Médio e pede muito pela paz. Pula amarelinha com as crianças da rua, mas não atinge o céu. Consola-se afirmando que ele, definitivamente, não combina com o seu temperamento ladino, imprevisível e mordaz.

Admite ter: amores meteóricos, disfunções metabólicas, cólicas pré-menstruais... Delírios ambulatórios, surtos persecutórios, saudades de Minas Gerais. Querer te levar para o Roxy, te agarrar num táxi a qualquer bandeirada, te conduzir num fox, te passar um fax e namorar na escada. Oh, yeah!

O espelho da sala pergunta.
-   Tá fazendo o que aí, minha senhora?
Ela se admira e responde:
-   Hora!

E lá pelas quatro da tarde recomeça a velha inana, a moça, a louca, a insana, arde e ferve em solidão, pega o cabelo e reparte, do lado de lá de quem vem e nunca chega por isso ela chora baixinho no vestido de algodão.