Nessa minha nova vida de solteira, descobri uma coisa para lá de curiosa: quando um cara pega o seu telefone, não significa que ele gostou da noite e quer te ver de novo, como no passado. Hoje, pegar o telefone virou apenas uma questão de educação.
Tudo começou no encontro de fim de ano das minhas amigas da faculdade. Uma querida (cujo nome será mantido em sigilo para que a sua identidade seja devidamente protegida) contou que dois dias antes do Natal conheceu um cara interessante numa festa. Os dois ficaram e ele pegou o telefone dela, mas não ligou. Na noite natalina, no entanto, ela recebeu dele uma mensagem de boas festas tão impessoal (parecia padrão para todos os amigos da agenda do celular), que ela achou melhor não responder. Afinal, quem a garantia de que ele se dava conta de que a minha amiga ainda estava nos contatos dele?
Duas outras também tinham histórias de caras que pegaram o telefone e nunca ligaram. Uma terceira, coitada, chegou a receber a ligação. Mas, no segundo encontro, o carinha se despediu dizendo que ligaria. Até hoje, nada.
A revolta foi coletiva. Afinal de contas, na nossa adolescência o ato de pedir o telefone era uma espécie de termômetro do encontro. Se o carinha pegava nosso número, a gente sabia que o casinho tinha tudo para render. Se não pegava, já sabíamos que a ordem era partir para outra. Se o cara pedia e a gente tinha achado o encontro péssimo, pelo menos tínhamos o prazer de dar o número do telefone errado! Era muito bom isso! Apesar de não muito educado.
Pois conversando com um amigo querido, porém sincero de matar, concluí que pedir o telefone hoje em dia é um ato de educação. O cara faz isso para a gente não se sentir mal. Ou, como bem lembrou meu amigo sem papas na língua, de provisão. Afinal, um telefone a mais na agenda pode ser muito útil em um fim de semana sem programas interessantes.
Foi então o que aconteceu comigo. Numa festa de pré-réveillon, conheci o que Madonna chamaria de "beautiful stranger". Confesso que depois de um ano amoroso difícil, encarei o encontro como um presente de consolação. No fim da noite, ele pediu meu telefone. Lembrei das minhas amigas na hora e até pensei em dar o telefone errado de vingança. Mas, como antropóloga, era a minha chance de comprovar um fenômeno social (minhas amigas não engoliram essa desculpa).
No dia 31, já conformada de ter sido vítima de um fenômeno social lamentável, fui à praia levar as minhas oferendas para Iemanjá. Jogando as flores no mar, perdi um anel lindo de prata que usava no anelar da mão esquerda. Quando minha amiga me consolava, dizendo que Iemanjá haveria de me devolver o anel, só que de ouro adoro minhas amigas! o telefone tocou. Era ele para me desejar feliz ano novo!