Amor, dignidade e cumplicidade
Isabel Fillardis e Júlio César: uma trinca que dá certo
Por Leticia Rio Branco
Isabel Fillardis e Júlio César vão na contramão dos casais que se apaixonam à primeira vista. O começo do relacionamento foi à base de implicâncias. O primeiro encontro aconteceu num jantar de amigos em comum. “Foi uma sensação estranha. Implicava pelo fato de o Júlio falar muito. Ao mesmo tempo, tive a sensação de que já o conhecia”, conta a atriz.
O atual marido retruca: “A Isabel era meio metida”.
A faísca inicial acabou se transformando em combustão necessária para o início de um relacionamento, hoje em dia, com estabilidade de sobra. Os dois ficaram amigos, assumiram o namoro em maio de 2000 e, em janeiro de 2001, trocaram alianças. “Foi tudo muito rápido”, relembra Júlio.
Depois do casamento, nasceu Analuz, hoje com sete anos, e Jamal Hanuar,de cinco anos, que sofre da Síndrome de West (de origem neurológica e que ocasiona um tipo raro de epilepsia). Com o problema do filho caçula, os dois passaram por momentos de dificuldade e angústia. Mas nada que não superassem com muito amor e dignidade.
O resultado da união está nas Ongs A Força do Bem, para ajudar mães que não têm condições de cuidar de seus filhos especiais, e na Doe seu Lixo, que desenvolve projetos sociais através da reciclagem do lixo. "Uso a minha imagem a favor do bem. Este é o meu lema", diz Isabel.
- QDicas: O começo do relacionamento de vocês não teve nada de tradicional. Como foi?
- Isabel Fillardis: Assim que dei de cara com o Júlio, não gostei dele (risos). Foi a minha mãe que percebeu uma coisa estranha no ar. Ela disse que eu fiquei “abestalhada”. Eu comecei a implicar com o jeito dele, pois falava demais! Mesmo com as implicâncias, acabamos nos aproximando. Ele começou a me dar conselhos e me fez ver um outro lado da minha profissão.
Júlio César: A Isabel era meio metida. Mas já tinha visto a moça antes e tinha a sensação de que ela seria minha. Ela era a mulher dos meus sonhos, sem dúvida.
- QDicas: O que muda quando o namoro se transforma em casamento?
- Isabel Fillardis: Muda tudo. Você começa a lidar com as dificuldades da vida normal, aprende a respeitar o limite do outro. Quando você mora junto, tem que saber a hora que o outro não quer falar. Temos nossos arranca-rabos, mesmo sendo uma pessoa muito tranqüila. Sei que tenho que lidar, num casamento, com a interferência do externo.
- Júlio César: Casamento é construção e cumplicidade. É saber que o outro é diferente de você e isso é algo que tem que ser aceito. Não existe isso de querer mudar o parceiro.
- QDicas: Quais os segredos para uma relação dar certo?
- Isabel Fillardis: O segredo está na cumplicidade. Ter os mesmo objetivos em comum é essencial. Se a mulher fica com um cara que não quer ter filhos, uma hora isso vai dar problema. Tem a paixão, mas o amor é outra coisa: a paixão é a queima. O amor é querer ver o outro feliz, não magoar e não falar na hora da raiva. O que funciona é a lealdade, a fidelidade, pois estar debaixo do mesmo teto é mesmo difícil. Eu e meu marido falamos sobre tudo, de religião a sexo. A pior coisa do mundo são aquelas mulheres que ficam reclamando do marido. Ah! E a gente não tem rotina, isso também ajuda...
- Júlio César: Isso é verdade. Não consigo fazer nada igual. Antes do nosso casamento, eu já não tinha um Natal normal. Depois da nossa união, resolvemos chamar mais gente para a data. É um evento mesmo, com direito a jogos e campeonatos. É uma farra.
- QDicas: O que muda na relação depois de ter filhos?
- Isabel Fillardis: A prioridade muda. Mas é claro que separamos um momento só para a gente. Alguns dias eu fico com nossos filhos, em outros o Júlio fica. Vamos tentando equilibrar. A maternidade muda bastante, você deixa de pensar apenas em você. Você deixa de ser frágil e se torna mais forte.
- Júlio César: No nosso caso, não foi apenas uma mudança na rotina. Passamos por uma crise muito difícil com o nascimento do Jamal, que tem a síndrome de West. Foi muito pesado para a gente, um casal que estava começando a construir uma vida normal, ter um filho especial. Brinco falando que Deus esqueceu de mandar o manual de instruções do Jamal. (Risos).
- QDicas: E como superaram as dificuldades de ter um filho especial?
- Isabel Fillardis: Conseguimos superar com muita conversa e amor, claro. Mas é uma situação muito difícil. A mulher e o homem se culpam. Eu mesma achei que a culpa fosse minha, pensei que pudesse ser algo genético.
- Júlio César: Ficamos nos penalizando em busca de um culpado. Foram dois anos difíceis para que a gente se recuperasse, pois nossos custos aumentaram muito. É como se a gente só tivesse dinheiro para um tanque de um Fusquinha e tivemos que começar a abastecer um caminhão. E, quando estamos falando de uma criança especial, os investimentos não aparecem de uma hora para outra. Tem um tempo diferente do normal. É preciso ter muita paciência. Na maioria das vezes, o pai mete o pé e vai embora. O amor nos salvou.
- QDicas: O que mais admiram um no outro?
- Isabel Fillardis: O Júlio é um homem muito raro de se ver hoje em dia. Ele faz o estilo antigo. Ele é diferente, parceiro, não é um cara linear. É o meu melhor amigo. Sem contar que não é ciumento, nem machista. Ele está sempre do lado das mulheres.
- Júlio César: A Isabel é dona de uma sensibilidade e de uma leveza impressionantes. Ela me traz tranqüilidade e paz. A gente quase não briga e com ela tive um relacionamento completamente diferente dos anteriores. A Isabel me deu o conforto que faltava para superar os obstáculos que tive na vida.
- QDicas: Qual é a maior prova de amor que um dá para o outro?
- Isabel Fillardis: Ele inventa coisas que temperam a relação. Ele sabe que tenho uma profissão difícil e instável, que o mundo dos atores e da fama não é real. O tempo todo o Júlio ajudou a segurar a minha onda, a controlar o ego, a vaidade.
- Júlio César: A maior prova de amor a Isabel me dá todos os dias. Acho que amar é entender os defeitos do outro, mesmo que muitas vezes a gente não se dê bem. Temos coragem para lidar com nossas diferenças. Somos muito sinceros e falamos tudo um com o outro. A família é a base que nos sustenta.