Revista QDicas Poderosas - A Revista sobre Amor, Eros e Sexo.

Encontros Místicos

Por Homero Santos

Ela aparecia quando bem entendia. Acho que sim. Ou seria enviada contra sua vontade? Talvez... Nunca soube nada sobre o motivo de suas visitas.

Foram três meses e meio de aparições, um pouco mais, não sei ao certo. No começo, o horário era sempre aleatório. Curioso: se vinha uma vez às dez e quinze da noite, voltava na próxima vez às dez e quinze da manhã. Precisamente.

No começo, nunca via seu rosto, só as formas sinuosas que indicavam ser uma mulher. Os pés também ficavam ocultos, ora debaixo de uma longa bata ou, quando vinha nua, as panturrilhas acabavam em nada, a uns 15 centímetros do chão. Uma luminosidade azulada fulgurava nos extremos.

Na terceira ou quarta vez, estava preparado: “Vou fotografar”. Quando ela eclodiu atravessando o teto do quarto eram onze da noite. Acionei o celular e o flash espocou... slept. Na telinha, surgiu uma lagarta multicolorida, com tufos frondosos e ameaçadores que compunham uma figura meio mitológica, um monstrengo encantador. Vendo meu espanto, gargalhou gostosamente e partiu em seguida, dissolvendo-se no nada. Essa foi uma aparição brevíssima que me rendeu uma noite tumultuada por suores e pesadelos.

No dia seguinte, obedecendo a regra dos horários simétricos dois a dois, veio exatamente às onze da manhã. Era uma segunda-feira e eu estava no metrô. Surgiu no meio dos passageiros, vestida com um longo pano enrolado ao corpo e arrastando no chão, um jeitão de indiana, não fossem os cabelos loiros derramados em cachinhos por cima das orelhas. Uma ninfa dos regatos.

Não hesitei: fotografei-a de novo. Uma borboleta surgiu na telinha do celular, toda em tonalidades azuis e...com um rosto de menina sorrindo por dentre as asas, duas antenas no lugar das madeixas da figura, digamos, real. Desta vez, ela apenas sorriu como que sussurrando “viu só?”, me beijou de leve os lábios e saiu ligeira pela porta que se abria na estação onde a composição acabara de parar.

Bem, variações e muitas ocorreram durante o segundo mês das visitas. Muitas vezes só aparecia o vulto e, estranhamente, nessas ocasiões conversávamos longamente, às vezes por horas e horas. Já não havia mais a simetria de horários.
Mas era sempre à noite, depois que eu me deitava e apagava a luz, já pronto para dormir.

Não sei como nomear isso, mas as conversas eram sem palavras. Havia uma troca fluente, sem fim, e nos entendíamos tão gostosamente... um completava o que o outro dizia. Dizia? Não, não eram palavras, eram ondas de pensamento.
Conversavamos o tempo todo sobre assunto nenhum, não havia propriamente idéias, mas trocávamos uma irradiação que nos tornava felizes e transcendidos. Eu, ao final, caía em êxtase e, cada vez que repenso esses momentos, me convenço que tudo isso a fazia também muito, mas muito feliz.

Cada vez mais freqüentemente foi acontecendo assim: de repente, ela emitia um breve gemido e seu corpo ia se rarefazendo, e sua roupa também, isso nas vezes em que vinha vestida. E, literalmente, tudo se desfazia, ela se ia... O repetido gemido me levou a crer que ela era de fato retirada, arrancada, que obedecia a um comando.

Eu não mencionei, mas exceto o beijinho no metrô, nós nunca nos havíamos tocado. Até aquela vez...

Naquela noite, ela chegou tarde, de madrugada. Nesta fase, a visitação já acontecia quase todas as noites. Nesta, em especial, eu voltava de um casamento em que fora padrinho do noivo, o que me levou a ficar até o fim da recepção. Sonolento, cansado... Eram umas duas horas da manhã.

Pronto! Lá veio ela surgindo luminosa, nua e, pela primeira vez, pude ver seus pés. Desceu do teto sinuosamente como uma organza que se desdobra. Recendia a ramos de pinheiro.

Ela me beijou com ardor, me abraçou ofegante, encostou sua pele macia por todo o meu corpo e nos amamos. Era um cio vegetal, verdejante. Biblicamente, ali, nos conhecemos. No torpor relaxante do depois, ela foi repentinamente se dissolvendo, diluindo-se para dentro de meus poros. E lá nas profundezas da minha intimidade desapareceu. Não houve gemido.

Nem um nome me restou para chamar. Sei apenas que não haverá mais visitas nem aparições: somos hoje dois em um.