Revista QDicas Poderosas - A Revista sobre Amor, Eros e Sexo.

Quando o contrato de exclusividade chega ao fim

Por Leticia Rio Branco


Se existe uma nova era no universo dos relacionamentos, uma das maiores colaboradoras para isso é a sexóloga e psicanalista Regina Navarro Lins. Casada com o escritor e roteirista Flávio Braga, ela detona o casamento tradicional e acredita que a relação aberta tem ganhado cada vez mais espaço, deixando de lado as normas do “até que a morte os separe”. “O contrato de exclusividade acaba com a paixão”, dispara

Para a carioca especializada no assunto, o sexo a três, o conhecido ménage à trois, será tão comum quanto a dois. “Quem disse que a sexualidade tem a ver com o quanto você ama uma pessoa?”.

Através de um discurso apimentado, Regina, que nem por isso desistiu de ter uma vida a dois - ela está casada pela terceira vez, há oito anos -, afirma à revista QDicas Poderosas que a teoria pode sim funcionar na prática. “Desde que haja um acordo entre ambos”.

Em tempo: o casal pensa junto e já escreveu cinco livros em parceria. O mais recente é o “Livro de ouro do sexo”. Uma boa dica para quem acredita que o amor é uma coisa, e o sexo, outra.

QDicas: Como e quando se conheceram? Foi amor à primeira vista?
Regina Navarro Lins: Nos conhecemos em 2000, quando eu comecei a fazer o meu site. Ele participava das reuniões e tínhamos o mesmo pensamento sobre relacionamentos amorosos. Não foi aquela paixão à primeira vista, diria que foi uma empatia logo de cara. Aí ficamos juntos, foi inevitável.
QDicas: Por que a relação de vocês dá certo?
Regina: Estamos juntos há oito anos e o segredo é não ter exigência nenhuma. A fidelidade não tem a ver com sexualidade. Isso só diz respeito a cada um, a gente nem comenta sobre isso um com o outro, se deixou de ficar ou não com outra pessoa. Cada um sabe de si.
Flávio: O segredo é que cada um trabalha no seu escritório, a gente respeita muito o espaço um do outro. O nosso casamento não cai na rotina porque estamos sempre escrevendo e conversando. Nós trocamos muito: eu sempre dou uma lida no que ela vai publicar e vice-versa. Sem contar que somos muito ligados ao erotismo.
QDicas: O que mais admiram um no outro?
Regina: O que mais admiro é a cabeça de intelectual do Flávio. Ele não tem moralismos, nem preconceitos. Conviver com ele é muito fácil. Sem contar que ele tem uma capacidade de ficar no computador três horas e criar uma história maravilhosa em tão pouco tempo. Nos respeitamos muito, nossa relação quase não tem atritos.
Flávio: O que mais admiro na Regina é a paixão que ela tem pelo ser humano. Ela luta para melhorar a qualidade do relacionamento, e isso é realmente maravilhoso. Ela também não tem preconceitos. Não tenho um ideal de relação, mas essa paixão dela pela vida me alimenta, já que sou um ficcionista.
QDicas: Vocês, então, não têm ciúme um do outro?
Regina: Não. Acho importante que o meu trabalho tenha essa capacidade de contribuir para a reflexão das pessoas sobre o relacionamento em si. Certas coisas são difíceis de mudar, como essa cultura de que o ciúme é normal e faz bem. Mas a idéia que defendo, e que está em oposição ao padrão social ao qual fomos submetidos, é que cada parceiro tenha uma vida própria. Temos que acabar com o império do ciúme e lutar contra ele. Este tipo de sentimento deve ser banido da vida das pessoas.
Flávio: O ciúme está ligado ao que falamos sobre exclusividade. É um sentimento que tem como base a insegurança. Isso não faz parte do nosso cotidiano.
QDicas: Quais as diferenças entre vocês e como convivem com elas?
Regina: Somos bem diferentes, apesar de pensarmos de forma semelhante em vários aspectos. O Flávio é mais discreto, tranqüilo. Eu tenho vários amigos e adoro me comunicar.
Flávio: Enxergamos a realidade através de diferentes pontos de vista. Eu ajo mais pela razão e a Regina pela fantasia. Assim, a gente se complementa. Isso é o que interessa.
QDicas: O que não gostam um no outro?
Regina: O que me incomoda é quando ele deixa a pasta de dente fora do armário. (Risos). Mas aí penso: ele faz tanta coisa por mim. Não vou reclamar por causa disso. Em compensação, ele adora cozinhar. E faz comidinhas saudáveis. Eu tenho horror a lavar louça, ele nem liga.
Flávio: Não quero dizer que a Regina é perfeita, mas não tem nada específico para reclamar dela (Risos). Conviver na mesma casa é uma arte, e nós fazemos isso bem. É o meu terceiro casamento e já estamos mais tranqüilos, maduros, rodados. Você não vai aprender a se relacionar depois de viver várias histórias. Com uma bagagem, é mais fácil ter uma relação.
QDicas: Como vêem o relacionamento do futuro?
Regina: Em algumas décadas, os relacionamentos livres vão predominar em nossa sociedade. Essa relação fechada a dois está com os dias contados. O que vai existir é o “poliamor”, que abordo no livro “Conversas na varanda”. As pessoas poderão amar mais de um parceiro, ter sexo a três, a quatro. Vai ser algo comum e as pessoas não vão achar isso tabu.
QDicas: Vocês não têm um casamento que tenha a fidelidade como regra. Vivem, então, um amor livre?
Regina: O que a gente vive não é um amor livre. Não vou sumir no último dia do ano novo e sair com o zé da esquina, sem avisar nada. Apenas acredito que a exclusividade sexual não seja importante numa relação. A fidelidade é algo antiquado.
Flávio: Concordo, isso não importa mesmo. Mas não falamos para o outro se transamos ou deixamos de transar com outras pessoas. Isso só diz respeito a cada um.
QDicas: Então, não acreditam no casamento?
Regina: Não acredito em 99% dos casamentos. A maioria tem como base a frustração, é sofrível, pois as pessoas vivem sob normas, regras, leis, exigências. Aí, é claro, a paixão acaba em pouco tempo. A exclusividade que é imposta acaba transformando os casais em irmãos, os parceiros acabam se tornando uma pessoa só. Com tanta simbiose, o fogo sai de cena.
Flávio: O casamento cheio de regras, ainda uma tradição, é um retrato da história de submissão da mulher.
QDicas: E como os casais devem se adaptar a esta nova forma de relação?
Regina: Toda relação tem códigos. A maioria das pessoas, hoje em dia, tem casos extraconjugais, mas fingem que são fiéis. Tem um casal de amigos meus que liberam o parceiro para ficar com outra pessoa, mas só pode acontecer um primeiro encontro e não pegar o número de telefone. Você não tem que saber tudo do outro, pois, assim, não existe a surpresa. Os casais que só saem juntos e contam tudo um para o outro perdem o encanto da relação. Muita gente prefere manter uma relação, repleta de insegurança e medos, apenas para não ficar só.
Flávio: Não existe uma fórmula. Conhecemos casais que têm relações parecidas com a nossa, mas que atuam de outra maneira. O casamento cheio de regras, ainda uma tradição social, é um retrato da história de submissão da mulher. Este sim não deve ser levado adiante.