Aquela mulher sinuosa, de cinturinha fina e curvas redondas que inspiravam poetas e sambistas, quem diria, acabou no esquecimento. Os símbolos de beleza nestes últimos tempos não têm cintura. Apenas músculos elásticos e atléticos aparecem sob biquínis, tops e calças de cintura baixa. Esse é o novo corpo feminino, esculpido nas salas de musculação. Que o digam Giselle Bündchen, Cláudia Raia e Adriane Galisteu.
O corpo violão, que fazia sucesso nos anos 60, virou sinônimo de excesso de gordura localizada e exige providências imediatas como dietas rigorosas, muita ginástica e plástica. Através do corpo, as mulheres provam que não há mais diferença entre elas e os homens.
Em tempos de Olimpíadas, não ficam atrás os corpos masculinos dos atletas e de modelos famosos que, com um desempenho físico muitas vezes desumano, se submetem a qualquer condição para seus corpos serem a prova mais exuberante da glória efêmera conquistada. É o que fazem os ídolos da mídia publicitária: muita ginástica e alimentação saudável para exibir um corpo que parece saído de um livro de anatomia, com a musculatura definida e sem curvas adiposas. Isso vende revistas que falam do assunto, pois, todos querem saber como e o que podem fazer para ter o mesmo corpo. Tudo o que os modelos vestem, usam e consomem (ou dizem que consomem) é lucro certo.
O corpo sempre foi uma identidade cultural e, através da história, sempre foi objeto de exaustiva atenção e fascinação, tendo sido adornado, mutilado, reverenciado, modificado e interpretado nas artes e ciências. Mediante a maquiagem, os cosméticos, os vestidos, os adornos, as plásticas e retoques, a diversidade de formas sempre foi representada no nosso cotidiano pela mulher-objeto, que tenta se aproximar ao máximo da ‘mulher ideal’, admirada no cinema, nas revistas de modas e nos anúncios publicitários. Hoje em dia, a valorização do corpo deve satisfazer, além dos nossos desejos, a estética, a moda e os hábitos de consumo de cada época, segundo o pensador francês Jean Baudrillard. Estamos na época do corpo como objeto.
Pensando o modo como construímos a nossa identidade física, a forma como o corpo tem sido visto e explorado pelos meios de comunicação de massa remete a algumas imagens gregas do “corpo nu”, que exibe contornos como forma de poder. O corpo escultural hoje é um objeto de consumo idealizado pela maioria dos mortais. Este corpo traz um viés de grandes leituras mitológicas, relembrando Apolo, o Deus de Delfos, que dita até hoje as mais importantes e belas leis primordiais, reduzido aqui o seu simbolismo por necessidade à figura de um homem jovem, sábio e da mais rara beleza. É um dos mais belos símbolos da ascensão humana.
Entraremos em cena, fazendo um retrato visual e a mitologia nos pontua as leituras da construção corporal que não surgiu nos anos 80 ou com Narciso. Nesta era virtual, o “body building” exalta o corpo perfeito, e que vende produtos na forma de propaganda publicitária através de bebidas, cigarros, roupas, estética e outros; o corpo belo deixou de ser uma beleza narcísica e passou a ser de fato um fenômeno global. Um “corpo malhado” significa força, virilidade, capacidade, inteligência. A estética, através do belo, está em evidência e se contrapõe com o envelhecimento do corpo, motivo de exclusão pela sociedade contemporânea. São mulheres e homens que querem fazer parte de uma mesma “tribo” ou “gangue”, exibindo seus contornos como um troféu. “Bundas e peitos” expostos parecem ter significado de sucesso e de independência, ou exploração sexual desse corpo. Tal contorno exuberante, o “glúteo” é reconhecido como o “ tchan” do Brasil, descrito em revistas especializadas em beleza feminina como “Autêntico mito nacional, a “bunda” é um valioso patrimônio do Brasil. De fato, a mulher brasileira nunca teve muito peito – antes, é claro, do silicone, isso se formos comparar com as mulheres americanas; vale dizer que o vocabulário ‘bunda’ é corruptela da palavra quimbunda (banto), mbunda, o que por si só liga a erotização das nádegas à cultura negra.
Os meios de comunicação de massa têm um papel fundamental na construção deste novo corpo. As estrelas, que esculpem seus corpos com personal trainers, são alvo de atenção; as apresentadoras e dançarinas usam seus dotes físicos e se tornam um símbolo de sucesso; e uma geração de galãs que, junto com o físico, carrega a ideologia de todo um estilo de vida, dito saudável; a moda, que sempre dita suas regras e, mais facilmente percebido, o poder de sedução das propagandas, que nos levam a um mundo onde o corpo belo e jovem imprime a marca do sucesso aos produtos a ele vinculados.
O profissional qualificado para o exercício da área de Educação Física, entendida como um campo de estudo multidisciplinar e de intervenção profissional que, por meio de diferentes manifestações e expressões da cultura do movimento humano, tem como finalidade possibilitar a todo cidadão o acesso a este acervo compreendido como direito inalienável de todos os povos, parte importante do patrimônio histórico da humanidade e do processo de construção da individualidade humana. Sob a dimensão do corpo, devem tratar o “corpo em movimento” nas exigências do mercado de trabalho do profissional de Educação Física. A orientação das atividades físicas precisa ser gerenciada com competência de sua compreensão, aplicação e satisfação de desejos. Portanto, a estética corporal e a promoção da saúde necessitam de promotores de atividade física para um corpo humano que não se construa em antigos dogmas, mas sim acompanhe a complexidade dos tempos atuais e tenha como principal objetivo da saúde de homens e mulheres.
Ana Paula Sena Lomba Vasconcelos é mestre em Educação Física pela Universidade Gama Filho/ RJ e professora da Faculdade Metodista Granbery – Juiz de Fora/MG.