Há pouco tempo tive a idéia deste artigo: na rádio, tocava uma das canções da pop Ana Carolina, em que ela diz que vai ficar “nua”(“de verdade”, o título da canção) na “sua” porta e outras coisas para que o objeto de seu amor note a sua existência e lhe dê alguma importância. “Minha busca por si só”, recita Ana, “já era o que eu queria achar”, no verso final, ela diz: “quem sabe então assim, você repare em mim, quem sabe então assim,você...” estas, na última inflexão, se condensam apenas na palavra “você” e, conforme a repetição, a duração prolongada acontece e quase fica inaudível que sua última pronúncia, numa sutileza que pode mais ter a mão do acaso a sílaba “ê”, da palavra vocêêê... vai se fechando e enfim provocando o surgimento de um vocábulo-chiste, ou ato falho sonoro em que o “eu” é a continuidade de você. Muito profundo? Muito superficial? Arriscado? É o que veremos na seqüência.
A reflexão que proponho se sedimenta com a análise de uma das mais importantes obras da MPB e de um dos seus mais festejados e conhecidos poetas , o “bardo cult” Chico Buarque de Hollanda. A canção a qual me refiro foi lançada em 1981 e regravada por inúmeros cantores: “As Vitrines”. Não é novidade que Chico tenha eficiência em colocar o discurso do “outro” como sinergético do seu próprio ou, do contrário, jamais teria o enorme sucesso conquistador em décadas de carreira. É ainda famosa a sua capacidade de identificar o feminino e transmitir aos seus personagens uma autenticidade emocional particular.
Abaixo, a letra:
Composição: Chico Buarque Eu te vejo sair por aí Te avisei que a cidade era um vão Dá tua mão, olha pra mim Não faz assim, não vá lá, não Os letreiros a te colorir Embaraçam a minha visão Eu te vi suspirar de aflição E sair da sessão, frouxa de rir Já te vejo brincando gostando de ser Tua sombra a se multiplicar Nos teus olhos também posso ver As vitrines te vendo passar Na galeria, cada clarão É como um dia depois de outro dia Abrindo um salão Passas em exposição Passas sem ver teu vigia Catando a poesia Que entornas no chão
Para encerrar esta breve reflexão, uma canção do Jorge Vercilo, cantor e compositor que se notabilizou por convencer a gravadora a investir em compra de horário nas rádios, o famoso jabá, fazendo ele mesmo a compra de horários regionalmente até que a resposta a suas canções mostrasse que era possível estourar nacionalmente e transformá-lo em mais um produto ótimo na circulação das clonagens e replicações de mídias, sucesso total de vendas. Sua trajetória de sucesso, como antes dele o Elimar Santos, se tornou exemplar em sua categoria (originalmente cantor da noite) e, logo depois dos primeiros anos do estouro nas rádios com jabá generalizado e conquistando o grande público, lançou o álbum “ Signo de Ar”. Com o sucesso ele comprou um apartamento no Recreio dos Bandeirantes com vista para o mar, deixando a sua zona norte natal.Se o leitor chegou até aqui e acompanhou satisfatoriamente as reflexões, basta conferir a letra abaixo. E vale lembrar que Jorge Vercilo é do signo de Libra:
Composição: Jorge Vercilo/ Nico Resende Anda, Manda e desmanda num beijo Por onde passa, encanta O seu sobrenome é desejo Por você o sol se levanta Me tira do sono e do sério Sopra no ouvido esse mantra Seu andar me deixa aéreo Seu sorriso faz verão Signo de ar Que mistério envolve O seu caminhar? Abre as varandas Do meu coração Que visão! Você e o mar... Signo de ar Faz o paraíso nos visitar Com seu sorriso De constelação No varal do verão Seu sorriso faz verão...