Revista QDicas Poderosas - A Revista sobre Amor, Eros e Sexo.

VOCEU
O discurso da paixão narcisista na MPB

Por Eduardo Camenietzki

Há pouco tempo tive a idéia deste artigo: na rádio, tocava uma das canções da pop Ana Carolina, em que ela diz que vai ficar “nua”(“de verdade”, o título da canção) na “sua” porta e outras coisas para que o objeto de seu amor note a sua existência e lhe dê alguma importância. “Minha busca por si só”, recita Ana, “já era o que eu queria achar”, no verso final, ela diz: “quem sabe então assim, você repare em mim, quem sabe então assim,você...” estas, na última inflexão, se condensam apenas na palavra “você” e, conforme a repetição, a duração prolongada acontece e quase fica inaudível que sua última pronúncia, numa sutileza que pode mais ter a mão do acaso a sílaba “ê”, da palavra vocêêê... vai se fechando e enfim provocando o surgimento de um vocábulo-chiste, ou ato falho sonoro em que o “eu” é a continuidade de você. Muito profundo? Muito superficial? Arriscado? É o que veremos na seqüência.

A reflexão que proponho se sedimenta com a análise de uma das mais importantes obras da MPB e de um dos seus mais festejados e conhecidos poetas , o “bardo cult” Chico Buarque de Hollanda. A canção a qual me refiro foi lançada em 1981 e regravada por inúmeros cantores: “As Vitrines”. Não é novidade que Chico tenha eficiência em colocar o discurso do “outro” como sinergético do seu próprio ou, do contrário, jamais teria o enorme sucesso conquistador em décadas de carreira. É ainda famosa a sua capacidade de identificar o feminino e transmitir aos seus personagens uma autenticidade emocional particular.

Abaixo, a letra:

As Vitrines

Composição: Chico Buarque

Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha pra mim
Não faz assim, não vá lá, não

Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir
Já te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão

Para encerrar esta breve reflexão, uma canção do Jorge Vercilo, cantor e compositor que se notabilizou por convencer a gravadora a investir em compra de horário nas rádios, o famoso jabá, fazendo ele mesmo a compra de horários regionalmente até que a resposta a suas canções mostrasse que era possível estourar nacionalmente e transformá-lo em mais um produto ótimo na circulação das clonagens e replicações de mídias, sucesso total de vendas. Sua trajetória de sucesso, como antes dele o Elimar Santos, se tornou exemplar em sua categoria (originalmente cantor da noite) e, logo depois dos primeiros anos do estouro nas rádios com jabá generalizado e conquistando o grande público, lançou o álbum “ Signo de Ar”. Com o sucesso ele comprou um apartamento no Recreio dos Bandeirantes com vista para o mar, deixando a sua zona norte natal.Se o leitor chegou até aqui e acompanhou satisfatoriamente as reflexões, basta conferir a letra abaixo. E vale lembrar que Jorge Vercilo é do signo de Libra:

Signo de Ar

Composição: Jorge Vercilo/ Nico Resende

Anda,
Manda e desmanda num beijo
Por onde passa, encanta
O seu sobrenome é desejo
Por você o sol se levanta
Me tira do sono e do sério
Sopra no ouvido esse mantra
Seu andar me deixa aéreo
Seu sorriso faz verão

Signo de ar
Que mistério envolve
O seu caminhar?
Abre as varandas
Do meu coração
Que visão!
Você e o mar...
Signo de ar
Faz o paraíso nos visitar
Com seu sorriso
De constelação
No varal do verão

Seu sorriso faz verão...