Era o jeito de Guiomar conduzir sua vida que mais nos impressionava. Era silenciosa, gestos leves; na voz, nenhuma estridência. Dava gosto ouvir suas histórias pernambucanas, de sua fazenda, onde a pobreza imperava e a inteligência sempre achava um jeito mais confortável de viver a vida. Estaria mentindo se dissesse que ela era um modelo de educação. Longe disso, mas nela havia uma certa aristocracia, um olhar que demorava muito a se deslocar de um lado para o outro e com isso não provocava ninguém que estivesse perto, um segundo sequer de ansiedade. Ela era a paz.
- Certas pessoas nascem abençoadas – comentavam as mulheres da casa.
Seria verdade? Por que então, de repente em sua vida, a presença daquele homem?
Ilusão era um hospedeiro de um destino trágico. Sua família tinha desaparecido por de forma mais estapafúrdia que se pode imaginar. Seu gêmeo, que nasceu surdo, uma bela tarde resolveu passear na linha do trem e o resto vocês bem podem imaginar. Não teve apito que o alertasse. O caçula da família, um fumante inveterado, resolveu limpar o bujão de gás no meio do serviço, veio aquela vontade de fumar um cigarrinho e... Algum tempo depois foi encontrado apenas um dos vários anéis que ele ostentava em todos os dedos das mãos. Ilusão trazia a jóia carinhosamente pendurada no seu cordão, junto com a medalhinha de Santa Vanísia, que nunca se soube de nenhum feito milagroso da referida, assim como da sua passagem pela santa escritura. Vanísia!???
- Eu sei que ele nunca vai se casar comigo – dizia Guiomar conformada com sua sorte.
- O que demonstra que esse homem tem juízo – diziam as mulheres da casa.
- O que mais me dói é que ele nunca fala comigo. Parece que eu não existo – suspirava no ferro de passar.
- Minha filha, não será ele mudo? O gêmeo que você me contou, era surdo.
Mamãe às vezes não tinha tato.
Os dias iam passando e Guiomar idem. Nada mudava em sua vida. Só Ilusão se entregava cada vez mais à bandidagem. Os feitos se avolumavam e ela colando os recortes de jornais, até que enlouqueceu e começou a se gabar. Cada novo bandido que surgia, lá vinha ela:
- Bandido é o meu! Além de tudo me dá casa e comida. Salve o Ilusão!
Houve um conselho de mulheres da casa.
- Guiomar, nós não vamos precisar mais dos seus serviços. De hoje em diante eles estão dispensados.
- Logo agora que eu tô de bobó.
Foi um Deus nos acuda.
- Agora mesmo é que não. E se um dia esse homem aparece por aqui? Você sabe muito bem que com filho a coisa toma outro vulto.
E antes que o sol nascesse Guiomar negou seu filho três vezes. Se apertava em cintas, tomava beberragens e conforme o esperado a criança não vingou. Ela não era mais a sombra do que fora. Tudo nela era histérico. Seus olhos ficaram fundos e baços, parecendo uma caveira. Cantava o dia todo pela casa: “Caveirinha eu bem te dizia que no cemitério ninguém te queria.” Era de dar dó. Mas como nem tudo que reluz é ouro nem tudo que balança cai, veio à volta do cipó. Ilusão realmente amava aquela mulher e não ia perdê-la para a adversidade da vida. Por ela faria qualquer coisa. E foi assim que naquela quarta-feira, Ilusão não pulou a janela. Entrou porta adentro e a carregou nos braços, para juntos tentarem a sorte no interior de Pernambuco, trabalhando na lavoura e começando uma nova vida.
Ilusão foi preso na rodoviária. Como não sabia seu nome, sobrenome, local de nascimento, nada que desse uma pista de sua verdadeira identidade, foi confundido com um batedor de carteira de quinta categoria que fazia ponto naquele local. Levado à chefatura, foi reconhecido, identificado e levado a julgamento por todos os seus crimes.
Guiomar arranjou emprego no bar das moscas e foi assim que nos reencontramos, anos depois. Aos poucos fui montando a triste história de Guiomar e do Ilusão. Triste para mim, porque ela continua satisfeita esperando que seu grande amor acabe de cumprir os quarenta anos de cadeia a que foi condenado e de novo abrir as janelas de seu saudoso quartinho. A vida não é tão trágica quanto a gente pensa.