Revista QDicas Poderosas - A Revista sobre Amor, Eros e Sexo.

As irmãs da Borralheira

Maria Carmem Barbosa

Naquela tarde, Alice ressonava sobre os travesseiros mais um sonho intranqüilo. Podia se ouvir os saltos dos escarpins nas tábuas corridas do apartamento. Eram as irmãs Zélia e Zênite que chegavam para visitá-la.

- Chapadona e caidaça? – perguntou Zênite pegando o vidro de tranqüilizantes na mesa de cabeceira.

- Chapadona e caidaça – respondeu Zélia retirando alguns comprimidos e colocando na bolsa.

- Alice! Alice! Sou eu Zélia, sua irmã. Você está me ouvindo? Trouxemos doces e flores.

Ouvindo as vozes das irmãs, Alice abriu os olhos e, diante da visão, virou-se para o lado, preferindo o mais profundo e intranqüilo dos sonhos.

- Não adianta. Ela quer falar com a gente. Parece até que nós somos a razão de todos os seus problemas. Enquanto Alice não tratar da cabeça, o corpo padecerá – vaticinou Zênite.

- Vamos passar um café.

- Vamos passar dois cafés.

Na cozinha, Zélia e Zênite discursavam sobre Alice enquanto devoravam os doces que tinham trazido para a irmã.

- Ela não se trata. Não se conhece. A vida para ela sempre foi um conto de fadas. Lógico que na primeira cacetada ficaria para sempre de quatro procurando a lente de contato. Ela é muito carente!

- Me dá mais um doce, Zélia, você está comendo tudo.

- Quando o Alberto foi embora eu cantei essa bola, lembra?

- Lembro. Lembro até do tamanho do decote que você botou no dia em que foi visitá-lo para tentar a reconciliação entre os dois.

- Você está maldando, Zênite. Ele é que durante todo este casamento se insinuou para o meu lado.

- Passa o doce.

- O sonho acabou. Passemos aos suspiros.

- Ela está passando uma corda no lustre e dando um nó.

- De novo essa modalidade? Enforcamento? Como ela adora chamar atenção! Tudo cabeça!

- Eu vou ligar para o meu terapeuta.

- Você não vai incomodar ninguém com seus dramas a essa hora – repreendeu Zênite.

- Estou péssima.

- Eu estou ótima! – Zênite andava pela cozinha e destroçava as margaridas – Eu, por exemplo, numa situação dessas, jamais me deixaria abater. Lembra quando o Jorge resolveu ir embora? No dia seguinte estava com a minha vida refeita. Botei advogado em cima dele e quase lhe tomei as calças. Ele voltou porque viu que era muito mais negócio ficar comigo.

- Como você é bárbara, Zênite!

- Eu vou lá dentro botar um ponto final nesta história.

E lá se foram os escarpins...

- Desce daí! Tá pensando o quê? Que a gente tem tempo para perder com a senhora! Que a minha vida é um mar de rosas? Desce já daí! Tira essa corda do pescoço, ridícula!

- Ridícula, ridícula, ridícula! – confirmava Zélia.

- Ainda bem que no borralho não tem gás, senão você já tinha enfiado a cabeça no forno. Vou lhe dar um dia pra sair da depressão. Mais um e eu venho aqui e te interno. Não posso fazer uma unha, um cabelo, meus ikebanas estão todos abandonados. Estou perdendo dinheiro por sua causa.

- Eu também, eu também – acusava Zélia.

- Vamos embora, Zélia.

- Vamos embora, Zênite.

Ao som dos escarpins, aquelas palavras calaram fundo no coração de Alice. E ela começou a fazer histórias. Hoje é uma autora famosa, vários best-sellers publicados. É claro que de vez em quando ela liga um gás, toma uns comprimidos, se pendura numas cordas, porque careta meu amor... Ninguém agüenta!