Naquela tarde, Alice ressonava sobre os travesseiros mais um sonho intranqüilo. Podia se ouvir os saltos dos escarpins nas tábuas corridas do apartamento. Eram as irmãs Zélia e Zênite que chegavam para visitá-la.
- Chapadona e caidaça? – perguntou Zênite pegando o vidro de tranqüilizantes na mesa de cabeceira.
- Chapadona e caidaça – respondeu Zélia retirando alguns comprimidos e colocando na bolsa.
- Alice! Alice! Sou eu Zélia, sua irmã. Você está me ouvindo? Trouxemos doces e flores.
Ouvindo as vozes das irmãs, Alice abriu os olhos e, diante da visão, virou-se para o lado, preferindo o mais profundo e intranqüilo dos sonhos.
- Não adianta. Ela quer falar com a gente. Parece até que nós somos a razão de todos os seus problemas. Enquanto Alice não tratar da cabeça, o corpo padecerá – vaticinou Zênite.
- Vamos passar um café.
- Vamos passar dois cafés.
Na cozinha, Zélia e Zênite discursavam sobre Alice enquanto devoravam os doces que tinham trazido para a irmã.
- Ela não se trata. Não se conhece. A vida para ela sempre foi um conto de fadas. Lógico que na primeira cacetada ficaria para sempre de quatro procurando a lente de contato. Ela é muito carente!
- Me dá mais um doce, Zélia, você está comendo tudo.
- Quando o Alberto foi embora eu cantei essa bola, lembra?
- Lembro. Lembro até do tamanho do decote que você botou no dia em que foi visitá-lo para tentar a reconciliação entre os dois.
- Você está maldando, Zênite. Ele é que durante todo este casamento se insinuou para o meu lado.
- Passa o doce.
- O sonho acabou. Passemos aos suspiros.
- Ela está passando uma corda no lustre e dando um nó.
- De novo essa modalidade? Enforcamento? Como ela adora chamar atenção! Tudo cabeça!
- Eu vou ligar para o meu terapeuta.
- Você não vai incomodar ninguém com seus dramas a essa hora – repreendeu Zênite.
- Estou péssima.
- Eu estou ótima! – Zênite andava pela cozinha e destroçava as margaridas – Eu, por exemplo, numa situação dessas, jamais me deixaria abater. Lembra quando o Jorge resolveu ir embora? No dia seguinte estava com a minha vida refeita. Botei advogado em cima dele e quase lhe tomei as calças. Ele voltou porque viu que era muito mais negócio ficar comigo.
- Como você é bárbara, Zênite!
- Eu vou lá dentro botar um ponto final nesta história.
E lá se foram os escarpins...
- Desce daí! Tá pensando o quê? Que a gente tem tempo para perder com a senhora! Que a minha vida é um mar de rosas? Desce já daí! Tira essa corda do pescoço, ridícula!
- Ridícula, ridícula, ridícula! – confirmava Zélia.
- Ainda bem que no borralho não tem gás, senão você já tinha enfiado a cabeça no forno. Vou lhe dar um dia pra sair da depressão. Mais um e eu venho aqui e te interno. Não posso fazer uma unha, um cabelo, meus ikebanas estão todos abandonados. Estou perdendo dinheiro por sua causa.
- Eu também, eu também – acusava Zélia.
- Vamos embora, Zélia.
- Vamos embora, Zênite.
Ao som dos escarpins, aquelas palavras calaram fundo no coração de Alice. E ela começou a fazer histórias. Hoje é uma autora famosa, vários best-sellers publicados. É claro que de vez em quando ela liga um gás, toma uns comprimidos, se pendura numas cordas, porque careta meu amor... Ninguém agüenta!