- Você me ama de verdade? – Perguntou ele aflito, do outro lado da linha telefônica.
- Mais do que a minha própria existência e todo amor que couber no coração dos outros – respondeu ela às gargalhadas, tapando o bocal do telefone para que ele não a ouvisse zombar.
A fotonovela ficava em cima da cama com as frases já ditas riscadas. Elas nunca se repetiam. Depois de esgotadas todas as frases de um número, corriam à banca mais próxima em busca de outro.
- Olha essa! É bárbara! – E liam dramaticamente: “Não há nada de explicável entre nós dois. Exceto esse amor que nos rende e consome.”.
- Não, guria, essa é espetacular! Vamos repetir!
Os namorados se rendiam diante da tormenta de palavras incontroláveis e inexplicáveis que diziam. Como, em tão pouco tempo de namoro, eles podiam ser tão amados e desejados?
Era o jogo de sedução que elas meticulosamente preparavam pra eles. Havia um gestual ensaiado, um jogo de olhares, uma bossa que eles não conseguiam resistir. Investiam. Elas se retraíam, ruborizavam e pronto! Estavam no papo.
Moravam no bairro do Encantado e sonhavam com o príncipe idem. Dedicaram suas vidas às frases feitas e amores desfeitos. Eram almas irmãs e sonhadoras. Ensaiavam beijos nos portais, abraçavam travesseiros e choravam lágrimas de crocodilo. Tudo inventado. Elas gostavam mesmo era de fotonovelas. O que mandassem fazer, certamente,fariam.
- Cremilda, você viu como o César Ricardo me olhou insistente essa tarde? Fiquei tão nervosa! Haverá outra intenção naquele olhar? Mas ele tinha aquela namorada, lembra? Ai, meu Deus! Vai largá-la e ficar comigo. Estou até vendo. Ele insistindo e eu negando, ele implorando e eu finalmente cedendo. Vamos ligar para ele e falar as frases da “Paixão que nunca tive”.
- Aracy, temos que comprar outra fotonovela. Esgotamos quase toda “Paixão”, só temos disponíveis três ou quatro frases.
- Não há pelo menos um reclame inspirado?
- Só o do Modess, mas fala muito pouco de amor.
- Azar!
- Não fala essa palavra! Diga, má sorte! – aconselhou Cremilda.
E foram suas últimas palavras. Daí então nada mais deu certo. Os rapazes se mostravam indiferentes as suas frases. Suas gargantas não seguravam as palavras, elas escapavam entre os dentes e caíam flácidas no chão.
- E se mudássemos um pouco. Podemos tentar... um livro – falou baixinho pra Cremilda não se assustar.
- Tá louca! Quer complicar nossa vida? No máximo, um filme musical.
Dividiram-se. Uma era Fred Astaire e a outra, Gene Kelly. Dançavam em praças, festas, praia, grandes magazines, como a Barbosa Freitas, mas o palco favorito, o que tirava as meninas do sério, era a tal da Galeria Menescal. Ali elas evoluíam. Qualquer cena de filme mais excitante, elas imediatamente imitavam.
Houve um dia que Aracy, ao descobrir um desses enormes ralos de rua, onde saía um ar poderoso, comprou um vestido esvoaçante e prostrou-se em cima. O vestido voava e Aracy fazia cara de grande prazer. Cremilda horrorizou-se.
- Aracy! Saia imediatamente de cima desse ar! Você sabe de onde vem esse vento?
- Ai! Pára Cremilda! Será que estou grávida?
- Sei lá!
Perdia-as de vista. Não sei o que foi feito delas na nouvelle vague, muito menos no movimento hippie dos anos 70. De Ana Karina a Janis Joplin, há um branco nessa história.
Há dias alguém me contou:
- Estive com as meninas do Encantado.
- E elas? – perguntei cheia de curiosidade.
- Estão repletas de felicidade. Engordaram muito. Viraram tipo específico e estão sendo muito usadas em comercial. Ameacei entristecer. Puro preconceito da minha parte. Por quê? Elas eram felizes.
- Elas se casaram? – insisti num festival de caretice.
- Imagina! Nunca tocaram nesse assunto. Ah! Elas fazem figuração em novelas. Se você souber de alguma coisa pra elas?...
- Você acha que solteiras, gordas e fazendo figuração elas estão bem?
- Pelos olhos risonhos que eu vi!...
Definitivamente acreditei nas palavras do meu amigo. Mesmo que tente duvidar, não dá. Elas sempre brincaram muito bem com a vida e com certeza se divertiram bastante.