“Por favor, onde posso encontrar a revista ‘Casa Claudia’?”, pergunto para a mulher da banca de jornal. “Perto das revistas sobre novelas”, responde a senhora, solícita e sorridente. “Vai levar para a sua esposa?”, questiona ela, também curiosa, que recebe um olhar meu um tanto surpreso.
Qual o problema de um homem comprar uma revista sobre decoração para ele mesmo? Preferi não entrar nesse mérito com a vendedora. “Não, é para mim mesmo”, resumi com um sorriso e entregando uma nota de R$ 20.
A cena aconteceu na semana passada e me fez pensar no quanto nós, homens, estamos nos arriscando em territórios antes estritamente femininos. Decoração, por exemplo. O fato é que acabo de receber as chaves de meu apartamento recém-entregue pela construtora – leia-se: no contra-piso, quase pelado – e estou disposto a decorar, sozinho, os quase 56 metros quadrados comprados para um solteiro sem pretensão de se casar nos próximos cinco anos.
Ao folhear a revista, me deparei com diversas opções de revestimentos, pisos, tecidos para sofá, cozinhas planejadas e termos então novos para o meu universo. “Putz! Seria bom ter uma mulher nessas horas para traduzir esse novo vocabulário ou até mesmo assumir essa missão”, pensei, ainda na página 20.
Então, veio o primeiro alerta: será a hora de arrumar uma nova namorada? Além das “obrigações” comuns de uma companheira, ela poderia me ajudar nessa empreitada, pesquisando estilos, preços etc, etc.
Alerta dois: certamente ela ia entender essa “ajuda” como um pré-pedido de casamento. Pensando bem, posso muito bem me virar sozinho.
Consultei algumas amigas que acabaram de decorar seus apartamentos e a resposta foi unânime: “se você quiser, a gente pode ajudar, visitar lojas com você, blábláblá”. Ótimo, pensei. Falei com um amigo casado e futuro vizinho. “Putz, cara! A Fê (mulher dele) que escolheu quase tudo. Só tenho ouvido o verbo ‘comprar’”. Que animador!
Ao final, continuo na estaca zero, questionando se o porcelanato é melhor que o piso laminado e se chamar um marceneiro é melhor que cair na armadilha das empresas de móveis planejados. O mais engraçado é que já sei qual televisão quero na sala: tamanho, marca, funções. Esse universo é meu!
Enfim, tudo o que quero é ter um apê confortável, moderno, prático, com aparelhos de última geração e pronto a qualquer hora do dia e da noite para receber minha futura namorada - ou namoradas. Sim, porque quando me casar, este apartamento já estará démodé, e as vontades da minha esposa – aquela a que a dona da banca de revistas se referiu - falarão mais alto. Sem contar que o verbo “comprar” será conjugado por mim com mais freqüência.